8/24/2009

Ao sair de Roma...



Desde quando você precisa disso? Já falei pra você, o jogo não é esse. O que faz de você tão diferente, se for muito acentuado, se for demais ensaiado, perde a naturalidade e vai te abandonar. Você é a força da natureza explodindo a cada segundo. Sei da natureza inconstante, mas será também que se dissimula nas artificialidades? Você é tão natural enquanto dorme. Preste mais atenção no seu dormir, é assim que você era. Tão forte, sua voz, seu ar, os furacões que saem de você enquanto respira. Senti-me envergonhado. Depois que se mudou de endereço, nunca mais te encontrei. Mesmo nos seus convites... Não parecia você. Seu cabelo, suas cores.


O jogo não é esse, mas parece que você deixou seus brinquedos nas gavetas de sua antiga cômoda. Mudou-se de casa. Acredito na sua belíssima mudança. Seu novo poder, sua nova pose. Seu corpo adquirido pelo tempo. Parece que cresceu. É óbvio o seu tamanho. Os salões se abrem para você. - Já previ tudo isso.


Não quero estragar seus dias, inventar histórias para você correr, deslizar, enlouquecer, arremessar suas coisas na parede. Vou partir de Roma, vou embora, levar todas as coisas, jogá-las fora, queimar, atirar tudo pela janela, mas levarei comigo algumas fotos. Irei para longe de Roma. Não! Eu rasgarei todas as fotos, e as lembranças, mesmo as por mim apagadas em um ataque súbito de fúria, como os furacões raros...


As lembranças apagadas eu as verei às vezes, mas será como assistir a um filme antigo, quando sinto saudade do que nunca vivi. Olhando os pedaços de fotografias juntados naquela hora humilhante que ninguém pode nos ver. Aquela hora que não somos nós mesmos, ajoelhados no chão a juntar cacos, na hora em que deixamos de ser os filhos da Natureza Inquieta. Olharei o filme antigo e sentirei saudade, vou pronunciar bem baixinho as falas dos atores, repetindo como se fosse comigo, imaginando o que nunca foi.


Quando eu resolvi fazer esta viagem eu já sabia o que estava por vir. Mas quem pode, ao ter conhecido o futuro através de uma cartomante ousada, resistir à tentação de se entregar ao próprio destino?


Você nasceu para ter quase infinitas experiências. Dentre elas, os seus limites ainda se formam, mas ainda faltam seus medos surgirem, falta tanto de muito, falta ainda o mundo te jogar alguma sujeira na sua pele branca e lisa. Falta ainda mergulhar em alguma água escura, cometer crimes sigilosos. Falta você perder o que tem de mais caro. Falta ser descoberta.


Meus terremotos, sopros, minha Natureza Arredia e Violenta não pode mudar o seu curso suave, delicado e contínuo. Posso fazer meus raios tão brilhantes e atraentes, cortantes e maus, descargas elétricas alucinantes, tormentas, vulcões ácidos e corrosivos, tendo a certeza que tudo isso te arrebatará e te arremessará, posso arranhar sua pele, seu sono, mas eu só estaria apressando sua saída das minhas Terras, meu pequeno riacho, cujas águas ainda vão molhar diversas planícies, ainda vão se secar em terreno árido, pedir por alguma chuva, ainda transbordarão e se sujarão, antes, muito antes de encontrar minha tempestade novamente, se eu ainda for um Elemento da Natureza.


Eu fiquei envergonhado quando passei perto de você. Vim caminhando em sentido contrário e não acreditei no que estava vendo. Aquele seu vestido lindo... O mundo ficou reduzido, o mundo todo cabia em qualquer casca de noz, naquela hora entendi como ele cabe em algo tão pequeno. - Meu Pequeno Mundo Reduzido. Quando passei ao seu lado não te olhei. Não era um jogo, era uma tempestade gelada com uma aparência de infinito rubor. Acredito que você deva ter sentido um ar mais quente, uma brisa de calor que saiu de meu rosto corado. Seu sorriso estava ainda mais jovem, parecia o primeiro sorriso de alguém que nasce para algo. Seu sorriso me ofuscou. Você não me viu. Não poderia jamais me enxergar. Ficaria imperfeita se me visse. E eu resumido. O calor de meu rosto corado tocou sua pele. Você sentiu, eu percebi. Nossos corpos por pouco não se esbarraram. Quase nos encostamos. Quase sentimos o cheiro um do outro. Por um pequeno segundo, quase... Quase, quase nos tocamos...


Passei e não olhei para trás. Duas ondas tão grandes se colidiram em outro lugar.

Assim fui embora para sempre de Roma. Mas aquele vestido ficou tão lindo em você, e o seu sorriso...


Alex Wildner ao som de Sufjan Stevens.
Em um dia de inverno chuvoso, enquanto ele ainda é jovem.
Se não chovesse tanto, se não estivesse só,
se não tocasse Sufjan Stevens,
Tudo estaria diferente...

4 comentários:

Lívia Araújo disse...

So come to my inbox. ;-) livia ponto araujo arroba gmail ponto com. Assim evita spam.
E me dá teu mail, rapaz!

Eu não propriamente me dei bem como assessora, mas é meu ganha pão e não estou fazendo feio. Meu negócio virou jornalismo econômico/político, e continuo no mesmo ramo como assessora. Mas desconfio, nem tão lá no fundo, que um dia vou dar um bico em tudo isso pra me emaranhar nas palavras de um jeito mais literário. É só eu ter um pouco mais de disciplina e persistência.
Francês? Bem, o professor do Caetano, que mora em SP, é muito, muito bom. Super recomendo e o LC também tem referências ótimas. Aliás, eu falo mais com ele que com você que é, digamos, meu amigo, hm, original. ;-) Precisamos tirar o atraso. Porque eu tenho curiosidade de saber como você está depois desses anos. (quando a gente fala 'depois desses anos', é porque possivelmente muita água já rolou, mesmo).
Beijo, beijo. Em setembro tem Porto Alegre em cena e em outubro/novembro, feira do livro e bienal do Mercosul. Tudo imperdível.

Anônimo disse...

Entao eu sou anonimo.

Eh claro que vc sabe quem sou!
A falta de acentuacao mostra que estou para la de Roma...
Aqui as vezes chove, quase nunca Sufjan Stevens, e uns dias faz sol e calor. Nesses dias a gente entende o quao deprimente o sol pode ser - porque ele nos lembra de quanto tempo vamos ficar sem ve-lo de novo.

Que saudades do sol do Vaticano...

Anônimo disse...

this new sensation...

Pablo Treuffar disse...

Muito bem narrado, fiquei preso nas palavras dstribuidas no seu blog, parabens pelo seu escrito, sorte pra ti