7/06/2007

Quando em Roma...

Gênero fragmento

Até que vire a esquina 
fragmento do discurso sobre o convívio amoroso e solitário

Uma certa vez, ah! e que vez linda foi essa, a menina do meu coração chegou perto de mim, ficamos próximos um certo tempo... Que breve momento, a mais efêmera eternidade que se pode provar...
Mas como já sabemos que tudo é passageiro, inclusive nossas alegrias, dizemos principalmente nossas alegrias, pois as delícias são menos duradouras que o sabor do amargo, mesmo que tenham durações idênticas, o amargo fica na lembrança da língua... Bem, outra certa vez a menina do meu coração foi embora. Como é grande o vazio do que nos escapa, calor intenso e breve seguido de inverno lendo, silencioso, às vezes uivante. Expectável na medida inversa de sua saída, sem expectativas de término.

Terminou o inverno, a menina do meu coração voltou, senti que para ficar...
Ficou sim, um tempo, mas foi embora, e mesmo o inverno sendo rigoroso este ano, sabia que ele teria fim, era cortante, mas era também cicatrizável. Assim seguiu um período de verões e invernos, de chegadas e saídas da habitante do meu coração...

Até que um dia o inverno não terminou mais... Fiquei sem madeira para a fogueira, nesse momento minha companheira expectativa tornou-se a espera e esta a angústia, uma surpreendente sensação de esquina, em que alguém pode aparecer de súbito, e nunca aparece... Um olhar para a esquina, um barulho, uma folha, um automóvel, um olhar para a esquina, um devaneio qualquer, susto e sensação de que será agora! Passos, uma pessoa. É agora! Olho para a esquina.

É qualquer pessoa...

Fiquei amigo das geleiras que eram essas sensações, convivíamos de maneira calorosa, é claro, mesmo elas merecem ser bem tratadas, pois sendo eu irônico, não poderia deixar de tratá-las de modo diferente de todas outras pessoas, que tratam mal suas solidões, para que tais hóspedes, se sentindo mal recebidos, não pensem em voltar...

Eu fazia o oposto, amigável com minha solidão, angústia e espera, fiz com que elas gostassem de mim, e embora sempre voltassem, não vinham para me maltratar, se vingar por algum dia terem sido mal recebidas no hotel da minha vida, elas vinham para dizer um oi, e na maioria das vezes, acabavam ficando, mas dormíamos em quartos separados...

O que é o melhor de tudo isso, é que eu posso receber avisos de quando minhas malignas hóspedes vão chegar, reservo salas especiais, deixo-as bem à vontade, assim, somente assim, podemos conviver amigavelmente, elas acabam por me ensinar sempre, algo sobre mim... É bom surpreender-se consigo mesmo.

Menina, até que você vire aquela esquina, vou ter com minhas três pupilas; da solidão que me apresenta sempre a mim mesmo, da espera que faz questão de me lembrar você, e da angústia que me faz saber que, é dessa tempestade inquieta e que não se pode esperar nada, que eu gosto... Até que você vire a esquina e eu veja as três sorrirem para mim, no momento em que saem sem bater a porta, mas deixam-na aberta...
Até que você vire a esquina, e surge sob a luz e brilhe meus olhos, até que você vire a esquina novamente... Avisando minhas hóspedes pra voltarem...
Até que vire a esquina...








Alex Wild 22 de junho de 2007
Meio dia e quarenta e cinco

4 comentários:

Anônimo disse...

Que bonito!


Beijos*..

tio! =)

Lu disse...

Escapou uma lágrima...
Bjos

g disse...

(((o0)))

;*

adoro vc

Anônimo disse...

Querido forasteiro, nunca e nunquinha a menina de longe será a mesma se um dia voltar, nem a esquina que vc olha, nem os invernos, nem os fogos, nem as sensações... Invocando um grego sábio: as paixões estão em movimento, são móbiles, desde o primeiro momento até o último suspiro...